sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Escavações no Afecto

 Eyes Wide Shut (1999) - Stanley Kubrick

Dr. Bill Harford: Honey, have you seen my wallet?
Alice Harford: Isn't it on the bedside table?
Dr. Bill Harford: Now listen, you know we're running a little late.
Alice Harford: I know. How do I look?
Dr. Bill Harford: Perfect.
Alice Harford: Is my hair okay?
Dr. Bill Harford: It's great
Alice Harford: You're not even looking at it.
Dr. Bill Harford: It's beautiful. You always look beautiful.

Poder-se-á dizer que somente metade da obra permanecerá como uma intemporal obra-prima, porventura o filme deveria ter simplesmente terminado, sem que se tivesse cogitado em excesso sobre o seu final. No epílogo de deste novo "Le Mépris" de Jean Luc Kubrick temos uma conversa sensivelmente corriqueira,  no original de Godard contemplamos um incrível mar azul. Ainda assim não será, de todo, assaz relevante que por um dia tenhamos deambulado com o cabelo despenteado, quando outrora tínhamos esgotado a Ficção Cientifica, o Terror, o Drama, a Guerra, o Thriller, o Romance, a Aventura, a Acção e até a Comédia.

[4.5 - 5]

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A beleza do Dadaísmo

American Beauty (1999) - Sam Mendes

Antanho existiu o urinol de Marcel Duchamp, hoje existe o voejante saco branco de Sam Mendes. Uma obra assaz prodigiosa, apesar das suas peculiaridades "hollywoodescas" a espaços, proporciona momentos hiper-belos. Cerca de metade da película chega a ser mais doentia que a adaptação de Kubrick (Lolita em 1962) embora não atinja, claro está, a excelência de Nabokov. 

[4.5 - 5]

domingo, 19 de dezembro de 2010

o Ecrã de Narciso

Hoje em dia todos nós possuímos um ecrã, esta simplificação surge na linha da eliminação das incógnitas do Binómio de Newton, o qual passa a existir somente enquanto designação, não se resolve, não se reflecte sobre o mesmo… existe (porventura existiu)! Passou-se, também, a resolver apenas parte do teorema de Pitágoras! A saga da intoxicação da imagem adquire tais dimensões que se passa a negar a beleza do astrolábio, construindo uma adorável figura geométrica, de modo a não molestar o nosso doente e frágil cérebro. O ecrã não será mais do que uma ode ao pós-minimalismo.

No futuro não nos contemplaremos no reflexo da água dos rios, nos olhos da pessoa que amamos, sequer num espelho quebrado, usaremos o ecrã.

Amanhã não existirão resquícios mnésicos, todos os sonhos, todas as pretensões, até mesmo os desejos mais sórdidos poderão ser visualizados em HD ou formato semelhante, num qualquer ecrã, não existirá subjectividade, existirão miríades de pixéis.

Pouco antes de me deixares, para sempre, não me verás através janela que dá para a sala de espera, ver-me-ás no ecrã.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Los Delirios Del Mariscal

A plenitude do entendimento não foi atingida (não consigo fazer perceber-me, o total de vezes que gostaria). Este facto teria de ser, indubitavelmente salientado. Para lá desta limitação meramente temporal, tudo é calor nos meus dedos e chama no meu coração! Tudo é aroma primaveril quando estou contigo. Tudo é intenso e agradavelmente suave quando me olhas de regresso do cabeleireiro. E eu gosto disso, eu gosto realmente disso… Irás gostar de saber que poderemos ter uma alcova onírica e muito mais, somente para nós, na próxima semana? Posso mentir se desejares.

O meu ser tornou-se um pleno eremitério, uma vela extinta, circundada de cera gélida. Sinto saudades. Passaram horas. Porém. Sinto saudades.

Rodrigo, proprietário da grande transportadora de Adão, anunciou a compra de um novo traje. Isto para honrar a tua presença. Falta muito pouco…

A poucas horas de estar contigo, os meus lábios amargam, as minhas mãos tremelicam e o meu olhar continua desconsolado. Preciso de ti! Preciso verdadeiramente de ti e de todo o teu encanto! Vem, porém detém-te, deixa-me beijar-te o pescoço… fantasiar com a tua língua incandescente!

Gracejo Ribombante, vulga brincadeira da EDP

A forma como as ideias fluíam era fascinante, faltavam poucas virgulas, porventura teria de segurar-te de outro modo, de forma a libertar o meu sémem... a obra estava perto do seu epilogo. A Iluminação cessa de forma instantânea, frusta pelo cessar da actividade e pela modificação do ciclo de fluidez. Está escuro, não existe à mão qualquer tipo de estrela, sorriso ou lanterna, resta portanto, recorrer à perturbada e doente memória, de modo a chegar à janela. O escuro adquire outra tonalidade lá fora, ainda assim permanece escuro e tão silencioso como cá dentro. Não voltou.

Hoje não valeu a pena. Tenho pressa, não quero repousar. Remar é preciso, sonhar não.

Berço da Decadência

Se questionado, diria que permanecia acordado, ainda que não o estivesse de facto, não cedia à pesada e dolorosa sonolência, ao semi-estupor... Esperava algo, mesmo não sabendo o quê, de verdade.
O som hoje não existe, além da melopeia criada pelos aviões, metropolitano, automóveis, roedores ou homens do lixo, a qual se equipara a naves galgando os poluídos céus, seguidas dos seus consequentes contentores. Por hora desperta a vácua cidade, tal qual uma colmeia, ou um formigueiro, as hostes saem dos seus exíguos cubículos, onde já nem insanidade existe, restam as rotinas e as quimeras a concretizar - porventura contas para e por pagar.